
Era uma terça-feira de março, às sete da manhã, quando Rosângela, 47 anos, costureira em Londrina (PR), foi colocar a roupa na máquina e sentiu o chão estranho sob o chinelo. Perto do tanque, duas lajotas da área de serviço estavam levantadas, com uma rachadura em diagonal. Entre os cacos apontava um broto verde e pontudo, grosso como um dedo. Ela levou alguns segundos para entender que aquilo era bambu.
Dois anos antes, o vizinho Valdir, 61 anos, motorista aposentado, plantou uma fileira de bambu colada ao muro que separa os dois quintais. Queria privacidade: a casa de Rosângela tem um quarto no andar de cima, nos fundos, e ele reclamava que dava para ver a churrasqueira dele lá do alto. Em poucos meses, a cerca verde já passava dos três metros.
O que ninguém via era o que acontecia embaixo da terra. Algumas espécies de bambu se alastram por rizoma, um caule subterrâneo que corre na horizontal e solta brotos a metros de distância da touceira original. O muro tinha fundação rasa, e os rizomas passaram por baixo dele até alcançar o contrapiso da área de serviço da vizinha.
Rosângela arrancou o broto com uma faca de cozinha e tapou o buraco com massa. Oito dias depois apareceram mais três, agora também na junta entre o piso e a parede. Um pedreiro do bairro abriu um trecho e mostrou o tamanho do problema: uma rede de rizomas grossos atravessando por baixo do muro, vinda do quintal de Valdir.
O orçamento para remover as raízes, refazer o contrapiso e trocar o piso ficou em R$ 2.800 . Quando ela foi conversar, o vizinho respondeu que tinha plantado do lado dele e que não tinha como controlar para onde a planta crescia. Sugeriu que ela cortasse o que aparecesse do lado de lá e encerrou a conversa no portão.
Até onde o morador pode cortar o que vem do terreno ao lado é uma dúvida antiga, que já apareceu por aqui no caso das árvores, com regras muito parecidas.