O gado tinha sido transferido para outro pasto, mas a água do cocho continuava baixando. Todas as manhãs, ao passar pela área antes do café, Geraldo encontrava uma faixa seca na parede interna do recipiente. O fazendeiro, de 58 anos, completava o nível no fim da tarde e fechava a torneira de abastecimento. Não era uma perda grande, dessas que deixam barro ao redor, mas se repetia o suficiente para chamar atenção. O portão permanecia preso, nenhum bovino voltara àquele trecho e o solo junto ao encanamento estava seco. Antes de comprar peças para um possível conserto, ele resolveu marcar até onde a água chegava.
Sem os animais bebendo ao longo do dia, Geraldo conseguia comparar o cocho de uma visita para outra. Durante a semana anterior, aquela mesma redução passaria despercebida entre os reabastecimentos. Agora, o pasto estava em descanso e o recipiente raso, perto da divisa, permanecia quase intocado até o anoitecer. Ele ainda mantinha a água por hábito, enquanto organizava a limpeza e a revisão da área antes de encerrar temporariamente o uso daquele ponto.
Na primeira manhã, imaginou ter fechado a torneira cedo demais. Na segunda, procurou uma rachadura. Passou a mão apenas pela parte externa, examinou o fundo acessível e verificou a saída de limpeza. Nada indicava um escoamento contínuo. Se houvesse uma falha grande, esperava encontrar umidade na terra. O estranho era voltar no meio da tarde e notar pouca diferença, para então encontrar outra faixa descoberta quando retornava depois da madrugada.
As marcas confirmaram que a maior mudança ocorria entre a última visita da noite e a primeira da manhã. Geraldo prendeu uma régua do lado de fora, numa posição que permitia comparar a superfície da água, e passou a fotografar do mesmo ângulo. Não colocou tinta ou produto dentro do recipiente. Em duas noites seguidas, a diferença voltou a aparecer, enquanto as fotografias feitas durante o dia mostravam pouca alteração.
Isso não bastava para descartar todas as perdas possíveis, mas enfraquecia a ideia de uma rachadura esvaziando o cocho sem parar. Ele conferiu novamente a saída e acompanhou o encanamento até o registro. No caminho de volta, encontrou a primeira pista fora da água: uma pequena marca dividida em duas pontas, impressa numa faixa de terra fofa. Era menor que as pegadas deixadas pelo gado e seguia na direção contrária à porteira.
As pegadas vinham do trecho mais irregular da divisa, onde pedras grandes se misturavam aos mourões. Geraldo acompanhou as marcas por alguns metros e perdeu o rastro no capim. De longe, a cerca parecia contínua. Ao caminhar pela parte interna, porém, percebeu que a vegetação estava dobrada numa faixa estreita entre duas pedras. Havia terra exposta ali, quase escondida pelas folhas que voltavam a cobrir o espaço depois de uma passagem.
Ele não mexeu na abertura naquela hora. Ainda não sabia o que circulava por ela nem se havia algum animal do lado de dentro. Voltou à casa e decidiu antecipar a visita ao pasto. Também manteve os cães no quintal cercado, evitando que corressem pela divisa. A investigação tinha mudado de direção: o cocho podia estar funcionando normalmente, enquanto o erro estava em considerar vazio um lugar apenas porque o rebanho havia saído.
Três veados surgiram no intervalo entre a escuridão e a primeira claridade. Geraldo os viu da varanda lateral, usando um binóculo antigo, sem caminhar em direção ao cocho. Um entrou primeiro pela passagem entre as pedras; os outros apareceram logo depois, separados por alguns passos. Pararam, levantaram a cabeça e avançaram até a água. O fazendeiro acompanhou a cena quieto, reconhecendo o percurso sugerido pelas marcas que encontrara na véspera.
Os animais beberam em momentos diferentes, com pequenas pausas, e deixaram o pasto pelo mesmo ponto. Geraldo já tinha avistado veados nos campos da região, mas nunca acompanhara aquela visita. A presença de pequenos grupos de veados em áreas abertas era compatível com a paisagem ao redor. A observação explicava a redução da água e as pegadas menores, embora ele não pudesse afirmar que os três eram sempre os mesmos em todas as madrugadas.
As duas pedras ocultavam um desnível na base da cerca. Vista da estrada interna, a abertura ficava coberta pelo capim e pela sobreposição das próprias rochas. O espaço era suficiente para aqueles animais atravessarem, mas não chamava atenção numa vistoria feita de longe. A pouca circulação de pessoas naquele pasto ajudara Geraldo a deixar o trecho fora das revisões recentes. Agora, as folhas dobradas faziam sentido como parte do caminho até o cocho.
Ele fotografou a passagem depois que os visitantes saíram e procurou orientação sobre como revisar a divisa sem prender animais ou criar uma barreira perigosa. Preferiu manter distância dos animais silvestres a tentar conduzi-los com os cães. Também não espalhou milho para fazê-los voltar. Seu problema continuava sendo organizar o uso da propriedade; a descoberta não tornava necessário aproximar os veados das pessoas.
O conserto do encanamento saiu da lista, porque a inspeção não indicara defeito e ele finalmente presenciara o consumo. A revisão da cerca entrou no lugar, acompanhada da avaliação do acesso dos animais e do manejo do cocho antes da volta do rebanho. Geraldo continuou registrando o nível por mais alguns dias. As anotações deixaram de servir apenas para procurar desperdício e passaram a mostrar em quais manhãs havia sinais recentes de visita.
Numa delas, encontrou novamente as pegadas pequenas, mas nenhum veado à vista. Olhou para a passagem entre as pedras e depois para a régua presa do lado de fora do recipiente. Durante dias, tinha procurado um buraco por onde a água escapava. A abertura estava mais longe, na cerca, e permitia a entrada de quem vinha beber. O pasto sem gado continuava silencioso quando ele chegava; agora, silêncio já não significava ausência.