Ler os planos de governo de 12 candidaturas à Presidência procurando propostas dirigidas às mulheres produz um resultado menos simples do que perguntar se elas estão ou não nos programas. Elas estão, mas não em todos os temas com a mesma intensidade. A questão, portanto, é outra: quais problemas das mulheres foram reconhecidos como problemas de governo e em que medida isso dialoga com o que elas próprias dizem considerar importante?
Na pesquisa Mulheres em Diálogo, do Instituto Update, 77% das mulheres apontam segurança pública e violência como os principais problemas do Brasil; 94% concordam que homens e mulheres devem receber os mesmos salários para cargos equivalentes; e 85% apoiam o aumento da presença feminina na política brasileira. Nos planos, violência contra as mulheres e feminicídio são o tema mais presente: aparecem em 9 dos 12 programas analisados. Saúde das mulheres, autonomia econômica e cuidado aparecem em 7 cada. Igualdade salarial está presente em 5. Já segurança urbana com recorte de gênero aparece em 3 planos; mulheres em espaços de poder, em 2; e participação político-eleitoral feminina, em apenas 1.
O contraste entre demanda e programa aparece com nitidez em alguns desses temas. Embora 94% das mulheres defendam igualdade salarial para funções equivalentes, propostas específicas sobre o assunto aparecem em 5 dos 12 programas. Na participação política, 85% apoiam o aumento da presença feminina, enquanto apenas um plano apresenta uma proposta específica de participação político-eleitoral. A diferença chama atenção porque revela duas formas distintas de incluir as mulheres nos programas: como destinatárias de políticas públicas e como participantes das decisões sobre os rumos do país. A primeira aparece com muito mais frequência que a segunda.
Isso não significa que um plano sem uma proposta específica esteja necessariamente ignorando determinado problema. O levantamento do Update considera propostas que mencionam explicitamente as mulheres como público ou relacionam uma questão vivida por elas a uma ação de governo. Políticas universais foram registradas separadamente. Além disso, os números medem presença e variedade temática, não qualidade, viabilidade ou impacto das propostas.