“No primeiro sinal, sai fora”: sobrevivente relata cinco dias em cativeiro e faz alerta a outras mulheres Ir Para o Conteúdo Buscar 24 de agosto de 2026 Início
Whatsapp Telegram Facebook X Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, relatou os momentos de violência que afirma ter vivido durante o sequestro. Foto: Reprodução/Redes Sociais. Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, relatou os momentos de violência que afirma ter vivido durante o sequestro. Foto: Reprodução/Redes Sociais. Nos siga no Cinco dias após ser resgatada de um cativeiro em Águas Lindas de Goiás, no Entorno do Distrito Federal, a técnica de enfermagem Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, decidiu falar sobre a violência que afirma ter sofrido pelas mãos do ex-companheiro, Ailton Rodrigues de Souza. Ainda com dores e tonturas decorrentes das agressões, ela afirma que tornou público o relato com o objetivo de alertar outras mulheres para os sinais de violência em relacionamentos.
“Para que outras mulheres não se calem”, explicou Emiliane ao falar sobre a decisão de contar o que viveu. Para ela, o principal conselho é não ignorar comportamentos abusivos desde os primeiros sinais. “O que eu posso dizer para as mulheres, hoje em dia, é: não aceite o inegociável. No primeiro sinal, sai fora. Porque eu tive vários sinais”, afirmou ao Correio Braziliense .
Emiliane desapareceu em 17 de agosto, após sair de casa para fazer um depósito e comparecer a uma consulta em uma clínica de estética na região da Barragem 1, em Águas Lindas. Ela havia combinado com o ex-companheiro, com quem manteve um relacionamento de seis anos e tem dois filhos, uma conversa sobre a audiência de pensão alimentícia marcada para o dia seguinte.
Após sair da clínica, a jovem foi até uma distribuidora administrada pelo ex-companheiro depois da separação. Segundo seu relato, a intenção era conversar sobre os filhos, mas Ailton teria insistido em uma reconciliação.
“Ele não deu assunto de forma nenhuma das crianças, não queria conversar de forma nenhuma, queria reatar, [disse] que poderia mudar, que a gente poderia voltar, voltar a ser uma família feliz”, relatou.
De acordo com Emiliane, os dois foram para os fundos do estabelecimento, onde havia uma cama e uma televisão. Ela afirma que recusou uma tentativa de aproximação física feita pelo ex-companheiro. “Eu falei: não, a gente não vai, eu não quero, já acabou, nós já tivemos seis anos de relacionamento, já acabou”, contou.
Segundo a sobrevivente, naquele momento percebeu que o encontro havia sido planejado para outra finalidade. “Infelizmente era uma armadilha, lá já estava com tudo preparado, eu não tinha percebido”, afirmou.
Emiliane relata que recebeu uma substância que a deixou desnorteada. Ela afirma ter permanecido consciente durante parte das agressões, mas sem condições físicas de reagir. “Eu estava consciente, eu ouvia tudo, mas eu não tinha mais força para debater e para mais nada”, disse.
A jovem também relata ter sofrido violência sexual durante o período em que esteve sob domínio do ex-companheiro.
Após ser retirada da distribuidora, Emiliane afirma ter sido levada para um imóvel no bairro América III, onde permaneceu mantida em cárcere durante cinco dias. Segundo o relato, ela ficou presa em um quarto, com braços e pernas imobilizados por algemas e correntes. Também teria sido colocada uma máscara sobre seu rosto, restringindo sua visão e respiração.
A técnica de enfermagem afirma que recebia medicamentos, entre eles clonazepam, misturados à água. O uso dos sedativos, segundo ela, provocava desorientação e perda de força. Em alguns momentos, o ex-companheiro soltava apenas suas mãos e retirava a máscara e a mordaça para que pudesse comer. A alimentação, conforme o relato, ocorria uma vez por dia ou até em intervalos maiores.
“Ele me soltava somente as mãos, e tirava a máscara e a mordaça, pra eu poder comer, isso uma vez no dia, nem sempre, nem todas as refeições”, contou.
Sem acesso à luz e sem saber o horário ou a passagem dos dias, Emiliane diz ter perdido a noção do tempo. As refeições eram uma das poucas referências que tinha para tentar entender quanto tempo havia passado.
Segundo a vítima, o ex-companheiro não aceitava o fim do relacionamento e teria planejado o crime desde março, aproximadamente três meses depois da separação.
Ela afirma que, mesmo durante o cárcere, Ailton insistia na retomada da relação e dizia ter armazenado alimentos suficientes para que os dois permanecessem no local por um longo período.
Emiliane relata ainda que conseguiu soltar algumas das primeiras amarras usando técnicas que havia aprendido quando era escoteira. Depois disso, porém, teria passado a ser mantida presa com correntes e algemas.
Durante o período em que permaneceu no imóvel, segundo Emiliane, o ex-companheiro apresentou duas alternativas: permanecer no local até a morte dos dois ou aceitar um acordo que envolveria a transferência de bens e dinheiro em troca do silêncio sobre o que havia acontecido.
“Nós podemos fazer um acordo, ou nós dois morremos aqui juntos, ou eu te passo todos os bens que nós temos, e tudo que eu tenho de dinheiro”, teria dito Ailton, conforme o relato da sobrevivente.
Ela afirma que fingiu aceitar a proposta para conseguir uma oportunidade de deixar o cativeiro. Ailton teria saído do imóvel para buscar documentos e providenciar, com um advogado, a transferência dos bens.
Poucas horas depois da saída dele, equipes da Companhia de Policiamento Especializado (CPE) da Polícia Militar de Goiás chegaram ao imóvel e resgataram Emiliane.
No local, os policiais apreenderam uma pistola semiautomática calibre 9 mm, munições, algemas, correntes e frascos de clonazepam. Segundo Emiliane, o ex-companheiro possui registro como Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CAC) e teria outras armas de fogo.
Ainda se recuperando das agressões e dos efeitos dos medicamentos, Emiliane afirma que decidiu contar sua história para que outras mulheres reconheçam situações de violência e procurem ajuda antes que elas se agravem. O relato, segundo ela, também é uma forma de transformar a experiência traumática em um alerta.
“O que eu posso dizer para as mulheres, hoje em dia, é: não aceite o inegociável. No primeiro sinal, sai fora. Porque eu tive vários sinais”, reforçou. Para Emiliane, a violência não começou no momento do sequestro. Na avaliação dela, havia sinais anteriores que hoje consegue identificar, mas que não foram suficientes para que percebesse a dimensão do risco.
“Eu tive vários sinais”, resume a sobrevivente, ao defender que mulheres não normalizem comportamentos de controle, ameaças ou outras formas de violência dentro de relacionamentos.
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