Uma paciente do Hospital Estadual de Sumaré, no interior de São Paulo, soube que estava grávida após ser submetida a uma curetagem para tratar o que havia sido diagnosticado como aborto espontâneo.
O engano só foi percebido um mês depois, quando exames de sangue e urina confirmaram a gestação em curso. A unidade, administrada pela Unicamp, abriu sindicância para investigar o caso.
De acordo com o relato da mulher, que não teve o nome divulgado, o episódio começou em 12 de julho, quando ela procurou atendimento após apresentar sangramento, estando com 12 semanas de gestação.
Na ocasião, a médica plantonista teria identificado o aborto por meio de exame de toque, sem solicitar ultrassonografia — o equipamento, segundo a paciente, estaria indisponível por se tratar de um domingo.
Com base nesse diagnóstico, a profissional indicou a curetagem de imediato . Após o procedimento, a paciente recebeu alta hospitalar e um afastamento médico de 14 dias, período em que, segundo ela, elaborou o luto pela perda que acreditava ter sofrido.
Passado o período de repouso , a mulher retornou às atividades profissionais, mas notou que o volume abdominal não regredia . Ela também relatou náuseas, dores lombares e aumento do volume das mamas — sinais que, a princípio, atribuiu a efeitos psicológicos decorrentes da perda gestacional.
Um mês após o procedimento, buscou outro médico para solicitar anticoncepcional. O profissional exigiu teste de gravidez antes da prescrição, e o resultado foi positivo — confirmado posteriormente por exame de sangue.
Uma amiga da paciente, ligada à área da saúde, levantou a hipótese de gestação molar, uma espécie de tumor benigno que se forma no útero, e recomendou retorno urgente ao hospital.
Em 14 de agosto, a paciente voltou à unidade com os resultados em mãos . A equipe médica cogitou duas possibilidades — gestação molar ou nova gravidez — e a encaminhou para ultrassonografia.
O exame revelou batimentos cardíacos fetais . Ao ser informada de que o aborto inicial fora atribuído a uma gestação de 12 semanas, a médica concluiu tratar-se do mesmo feto, então com 16 semanas.
Segundo o relato da paciente à Folha , um médico afirmou que a bolsa amniótica provavelmente havia sido perfurada durante a curetagem . Em razão disso, não havia líquido amniótico suficiente na bolsa gestacional — substância essencial para a formação dos pulmões e dos ossos do feto —, o que eleva o risco de hipoplasia pulmonar e de óbito do bebê após o nascimento.
Diante do quadro, a equipe médica apresentou à paciente a opção de manter ou interromper a gestação , com prazo curto para a decisão. Em 17 de agosto, ela optou por prosseguir com a gravidez , que passou a ser classificada como de alto risco tanto para o feto quanto para a mãe, com possibilidade de quadro de sepse. A gestante segue em acompanhamento no Caism, o Hospital da Mulher da Unicamp.
Em nota, o Hospital Estadual de Sumaré informou lamentar o ocorrido, confirmou a abertura de sindicância para apurar a conduta da equipe responsável pelo atendimento e afirmou que adotará as medidas cabíveis caso sejam constatadas irregularidades. A instituição reafirmou o compromisso com a prestação de assistência qualificada às pacientes.